O toque inusitado do telefone mudo há tempos,
rasgou o meu dia em duas metades. E, de repente, alguma coisa densa se
instalou no ar viciado dessas janelas fechadas do meu quarto. Não era um
peso, era a saudade avolumando os resquícios de vento. Era pra ser bom,
mas não como antes. Tinha calor, mas dessa vez vinha com mais ternura,
sem tanta força_ pra mexer na ferida propondo curas e falar de coisas
tristes num tom saudável. A voz mansa do outro lado me convidava pro
antigamente. Mas eu com a surpresa dele entulhando a minha voz de
sustos, só conseguia respirar fundo no início. Não declamou poemas dessa vez, mas desatou em mim um monte deles,
como sempre. E fui dormir mesmo sem sono, porque somente nos meus sonhos
a nossa história acaba bem.